quarta-feira, 20 de junho de 2012

A HORA CHEGADA!

A HORA CHEGADA!

ENFIM DE ANTES PARTIR, ele levantou o queixo dela com uma das mãos, olhando dentro de seus imensos olhos castanhos, onde podia ver seu rosto. Mais uma vez, ela segurou as lágrimas – e sabia o quanto ele odiava isso. Ela não sabia qual reação ter. Ele beijou sua testa antes de beijar seus lábios e não ficou admirado por ela – muito ao contrário do esperado – não oferecer resistência por estarem frente a todos os outros na entrada da escola que estava sendo o alojamento. A barba que cobria os lábios e muito do pescoço, a gravata listrada com o nó tradicional e a camisa bege com as mangas enroladas até os cotovelos, além da calça preta lisa com as bainhas dentro de coturnos pretos engraxados a ponto de brilharem e a imensa mochila fechada e abarrotada diziam por ele que partiria sem retornar, mas ninguém poderia dizer para onde. Ela não perguntou para onde iria. Ele também não disse palavra.
Ao passar a portinhola, ela e alguns amigos o seguiram e foi-lhes impossível conter o espanto com o que viram além do portão de metal. Uma imensa nave que cobria muito do céu e uma muito menor logo a frente deles, com – não saberiam dizer com certeza – humanos trajando roupas de astronautas ou mesmo robôs, porém todos portavam armas imensas e estavam à espera dele, certamente. Ela perguntou onde ele iria, que se virou e disse que demorariam a ser novamente, mas que pensaria nela todos os dias até que se tivessem em vista outra vez. Os olhos da menina já estavam cheios de água salgada, podendo ser notada mesmo detrás de lentes grossas. Os poucos amigos lá presentes não sabiam o que dizer, mas deram seus melhores abraços nunca antes quando ele perguntou se não despedir-se-iam. Infelizmente tanto seus pais e irmãs quanto aos que gostaria de dizer algo antes de ir não estavam lá, mas outros tantos seriam re-encontrados na nave-mãe e então seguiriam ao objetivo final, e isso, de alguma forma, servia de alívio.
Não disse a palavra tão costumeira em tais momentos. Não faria isso com eles. Olhou-a fixamente em olhos e eles não o tiraram de vista até que ele e os soldados desaparecem através de uma tecnologia que só havia sido vista em filmes e séries. Momentos depois, a pequena nave foi até a menor, e ele não a tirou de vista até que a maior alcançasse altura suficiente para não mais visão e então sumisse da atmosfera, alcançado o infinito iluminado sobre por estrelas de diferentes tamanhos. Somente então, foi até os que sabia que encontraria e cuidou de seus afazeres a partir dai.
Não havia sol onde eles estavam. As nuvens estavam espessas mas ainda era possível sentir a manhã. Não havia som além dos carros passando pelas duas mãos da avenida e das lágrimas caindo. Os olhos castanhos seguiram as naves até que sumissem no vazio, sendo que o rosto alvo não o era mais e sim escarlate. Não havia vento algum para esvoaçar os cabelos também castanhos já na altura dos ombros e nem o vestido florido em alvinegro. A irmã a abraçara por trás e estavam de dedos fortemente entrelaçados à altura do busto, ambas com os pequenos pés de princesas em contato direto ao chão não-acimentado, com os olhos fixos no cinza.
Ele prometeu a ela que voltaria. Ele não sabia se podia cumprir.
Mas ela esperaria.

:: conto de Rafael Alexandrino Malafaia ::
:: 14 de junho de 2012 ::

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